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Quer fazer jóias? Você precisa aprender a desenhar.


Primeiro de tudo: o objetivo desse texto não é gongar ninguém. Ninguém nasce sabendo, as pessoas têm experiências e privilégios de vida diferentes e não cabe a mim nem a ninguém julgar o outro por isso.

Você já ficou semanas fazendo uma peça em um ateliê, para chegar no final e simplesmente detestar o resultado? Já pegou uma foto de jóia no Pinterest e não conseguiu fazer uma peça nem parecida? Já encomendou uma jóia e não conseguiu passar a sua idéia para o ourives, ele acabou fazendo do jeito dele e você ficou frustrado com o resultado?

Como uma pessoa altamente envolvida tanto no ensino da joalheria quanto no negócio de fazer jóias para os outros, vou dizer a partir da minha experiência o quanto o saber desenhar pode te poupar muitas dores de cabeça, dinheiro e frustrações.

Eu uso aqui a palavra “desenho”, porque a palavra “design” envolve muito mais do que isso.

E isso se aplica mesmo se você não for fazer as peças e for terceirizar para um ourives ou modelista 3D. Aliás, o desenho é importante principalmente nesse caso.

A propósito: saber desenhar não significa que você precisa fazer obras primas, com medidas arquitetônicas, usar canetas caríssimas ou softwares misteriosos.

Até caneta Bic numa folha de caderno serve.

As nossas idéias estão na cabeça, flutuando no éter, e nesse lugar elas não tem dimensão nem qualquer contato com a realidade. Quando colocamos no papel, fazemos um rabisco, começamos a entender como essa peça existiria no mundo real.

O que um desenho precisa ter:

1. Vistas

Desenho é a visualização de algo que não podemos tocar enquanto está apenas na nossa cabeça.

A peça precisa ser desenhada de pelo menos 3 vistas: de cima, e de lado, e de frente. Isso porque as nossas peças no mundo real têm 3 dimensões: comprimento, largura e altura.

No caso de um anel, por exemplo, essas vistas seriam: vendo a mão de cima, vendo o dedo de lado, e vendo o dedo apontando para você.

Se a peça tiver algum detalhe diferente, se a base do anel for mais estreita, se o bracelete tiver algum tipo de fecho, também convém fazer uma quarta vista de baixo.

Muitas pessoas tentam desenhar apenas na perspectiva, mas a perspectiva sem as vistas mais confunde do que ajuda. Isso porque ela mostra todas as dimensões de maneira distorcida e ao mesmo tempo esconde muitos detalhes importantes. As 3 vistas são muito mais importantes, e úteis, do que uma perspectiva.


2. Dimensões

As peças serão usadas em uma pessoa real, então o desenho precisa começar com a medida certa: a circunferência do dedo, a largura da oval do braço. Se a peça tiver pedras, elas têm tamanhos específicos, e devem ser desenhadas no tamanho real, com comprimento, largura e altura.

É importante partir dessas medidas reais, para podermos tomar decisões em relação à espessura da chapa ou do fio utilizado, por exemplo. Elas são importantes para a ergonomia e conforto da peça. Um anel com uma pedra grande precisa de uma base maior, pedras menores precisam de caixinhas mais baixas. Também para ver as proporções da peça em relação ao corpo. Muitas vezes queremos fazer um anel de tubo, e só lá na frente descobrimos que um tubo de 5mm pode ser super desconfortável para usar no dedo. Ou que uma pedra muito grande, que precisa de uma caixinha grande também, pode ficar abrutalhada para o dedo. No desenho, podemos tentar antecipar esse resultado, e fazer alterações de acordo. Desenho é entendimento.

3. Detalhamento

Um desenho deve mostrar as espessuras de todo o material utilizado de forma correta. Assim, podemos saber qual a espessura da chapa, o diâmetro do fio, a largura e altura da fita, e todo o comprimento de material que vamos precisar. Dessa forma, podemos encomendar os materiais corretos para confeccionar a peça. Podemos prever a quantidade e o tamanho dos diamantes de um pavê. E podemos também calcular uma estimativa de peso final da peça, caso necessário. Desenho é planejamento.

O detalhamento também deve mostrar as estruturas especiais da peça: se ela tem algum rebite, dobradiça, uma junção especial, um fecho, ou até se você quer que o aro do anel fique por baixo da caixinha ou se ele chega na lateral da mesma. Com isso, você consegue se organizar nos passos da fabricação da peça, e caso vá terceirizar o projeto, consegue passar todas as instruções para o seu ourives ou modelista 3D. Desenho é ferramenta de comunicação.

 

“Mas eu não sei desenhar, não quero aprender a desenhar e quero que outros resolvam por mim”.

Também é uma posição válida. Mas você precisa estar preparado para algumas coisas.

Primeiro: o Custo. Esteja pronto para pagar pelo tempo que o profissional vai gastar fazendo o planejamento da peça por você. Design não é uma coisa mágica, leva tempo, estudo e muito planejamento. Se você é aluno ou aluga o espaço de um atelier, vai gastar muito mais horas para fazer a sua peça.

Segundo: as Dificuldades Técnicas. Sem desenhar uma peça, você não consegue prever se aquela solda é possível, se a espessura é suficiente, se a estrutura será resistente, se o mecanismo é realizável. Você com frequência vai ouvir um “isso não pode ser feito” com frequência. Se você faz as próprias peças, vai encontrar dificuldades e muitas vezes vai ter que voltar atrás e refazer.

Terceiro: Frustração. Se você não especifica o que quer, a pessoa vai fazer do jeito dela. E você pode gostar ou não. A mesma coisa ocorre quando você faz suas próprias peças sem planejamento: você precisa estar preparado para aceitar resultados diferentes do que imaginou no princípio.

 

Em tempo: Desenho não é uma panacéia. Ele não vai resolver todos os seus problemas. Mas é uma ferramenta poderosa, e fácil de usar, para prevenir ou prever muitas das questões que podem vir a ocorrer no seu processo.

E outra: se você é um joalheiro instintivo, gestual, que gosta de improvisar e o desenho não entra no seu processo criativo, se joga! Vai fundo! Não pretendo de forma alguma estabelecer regras para ninguém e nem fazer julgamento de valor sobre a produção de nenhum artista. Eu mesma não planejo tudo o que eu faço - mas eu já tenho um pouco de experiência no meu modo de produção, e como sou minha própria ourives, me comunico bem comigo mesma ;-) E mesmo assim, muitas vezes tenho que aceitar peças que teimam em não sair do jeito que eu quero. Faz parte da vida, que bom!


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